As Crônicas de Gelo e Fogo – A Guerra dos Tronos (Resenha)

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Quando pensamos em Fantasia o primeiro nome que nos ocorre sempre é o do simpático velhinho inglês fumador de cachimbos J. R. R Tolkien. Esse pacato professor de anglo-saxão de Oxford tornou-se um fenômeno depois que O Senhor dos Anéis, sua maior obra, virou febre nos EUA, por volta de 1965, entre a juventude hippie universitária, pelo seu teor anti-bélico e de repúdio ao avanço tecnológico predatório. Tolkien fincou pés firmes nos EUA e ganhou uma base sólida de fans e a partir daí tornou-se um sucesso mundial, com adaptações para o cinema, jogos e livros.

Com Tolkien a Fantasia teve um up de popularidade e de aceitação, e esse gênero, muitas vezes considerado inferior ou de pouca relevância, ganhou com a obra do inglês uma referência valiosa e inspiradora e um modelo a ser seguido e copiado. Assim, um verdadeiro batalhão de novos autores escrevendo Fantasia surgiu, mas nunca com o mesmo alcance e profundidade de Tolkien.

Mas isso parece ter mudado.

Agora presenciamos o surgimento de uma nova abordagem da Fantasia, com o não menos simpático velhinho americano George R. R. Martin e as suas já aclamadas (porém ainda não finalizadas) Crônicas de Gelo e Fogo.

Se em Tolkien, há uma luta entre forças contrárias, com personagens bem definidos representando o bem o mal, com Martin as coisas se tornam nebulosas e quase nunca se pode assegurar quem é o vilão ou o herói. Além disso, há na obra do americano características quase inexistentes em O Senhor dos Anéis, como a violência crua e sem atenuações e o erotismo explícito, o que faz com que muitos considerem As Crônicas de Gelo e Fogo uma leitura mais “adulta”. Embora na obra de Tolkien existam personagens complexos psicologicamente (como Gollum, Frodo e Boromir, entre outros), seu foco maior é a criação mitológica em grande escala e o trabalho mais artístico com a palavra, enquanto que para Martin a construção dos personagens é mais importante. No entanto, falta para Martin uma noção de mitologia mais profunda, o que em Tolkien ganha uma proporção gigantesca e quase insuperável.

Essas são as comparações mínimas que normalmente são feitas entre os dois autores, e a única conclusão a que se pode chegar é que eles são bem diferentes e que essas diferenças não anulam as qualidades literárias de suas obras, transformando-os em rivais. Pelo contrário, Martin já assumiu inúmeras vezes sua dívida com a obra de Tolkien, e faz questão de declarar que o considera como mestre. Diante disso, Martin não surge para superar seu mestre, mas para acompanhá-lo no engrandecimento da Fantasia, e nos remeter ao monumental trabalho do autor inglês, com a reverência e admiração que todo clássico fundamental requer.

Atento a esse momento de grande sucesso de Martin, o Murlocks inicia hoje uma série de resenhas dos volumes publicados até agora das Crônicas de Gelo e Fogo. Os textos são assinados pela nossa parceira Karol, autora do blog Literatura Pop.

*Esse texto de introdução foi elaborado e desenvolvido pelo nosso camarada Elsepulmetal.

Segue a primeira resenha para vocês conferirem (lembrando que essa resenha foi escrita em 2011):

a-guerra-dos-tronosEeeeh! Essa semana calhou de eu ler um livro que acabou de estrear como série de TV – não qualquer TV, a HBO. E calhou também de eu descumprir uma das minhas promessas-em-potencial para 2011. Mas como é “em potencial” e eu ainda não tinha prometido nada efetivamente mesmo, a gente abafa o caso.

A série em questão é “Game of Thrones”, que estreou domingo passado, 08/05, às 21h, na HBO – e eu recomendo muito!

E a “promessa-em-potencial” em questão é que eu não iniciaria mais a leitura de séries inacabadas. Pois é, meti o pé-na-jaca bonito nessa. Sabem quantos livros a série tem? 7. Sabe quantos foram lançados? 4. Sabem quantos anos o autor demorou pra escrever o livro 5, que vai sair agora em agosto? 6. Sabem quantos anos o autor tem? 62. Vocês já podem imaginar a situação, né? Eu tô praticamente fazendo novenas pela saúde do cara pra que ele não passe dessa pra uma melhor antes de terminar a série. Sério.

Agora, sem mais delongas (adoro essa frase), vamos ao que interessa: o Livro.

A Guerra dos Tronos é o primeiro livro de uma série enorme – como eu já comentei ali em cima. Ele conta a história de um reino dividido em 7 províncias que está à beira de uma sangrenta guerra civil. No reino em questão, a natureza é MUITO BIZARRA. As estações do ano podem durar anos e anos e anos e uma das frases que a gente mais lê é “O inverno está para chegar”. No início do livro estamos no finzinho de um verão que durou 9 anos, logo, espera-se um inverno muito severo.

Em Westeros – o reino – sete grandes famílias governam as 7 grandes províncias (aqui cabe uma observação: em NENHUMA parte do livro, ao menos que eu me lembre, é citado o nome do Reino. Descobri na Internet  edit – Errado: O Alê acabou de me falar que consta sim o nome do reino. Página 417.). A história do livro se baseia nos fatos ocorridos com os membros do clã Stark, do norte, e Lannister, o clã da Rainha, do Sul e também na luta do clã Targaryen para recuperar o trono que lhes foi roubado pelo atual rei. No início, o patriarca da família Stark, Eddard, governador de Winterfell, é convidado pelo Rei de Westeros, Robert Baratheon, a se tornar a “Mão-do-Rei”, uma espécie de conselheiro-chefe, assistente, cavalariço, pajem que faz tudo que o Rei precisar. Seja trabalho sujo ou limpo.

Eddard, ou Ned – apelido –, tem certas reservas quanto a aceitar o cargo, porém, por acreditar que a Rainha conspira para derrubar o Rei Robert, ele aceita e vai, com a corte, para o Sul, levando com ele duas de suas filhas: Arya e Sansa e deixando outros quatro filhos, um deles bastardo, e a mulher, Catelyn, no comando de sua província, Winterfell.

A história de A Guerra dos Tronos nos é contada pelo ponto de vista de vários personagens, a maioria deles do clã Stark. As exceções ficam por conta de Tyrion Lannister, anão, irmão da Rainha e o melhor personagem do livro e Daenerys Targaryen, filha exilada do rei anterior a Robert, que foi traído por sua guarda real, que por coincidência é do clã Lannister – a guarda, não o Rei.

O livro é cheio de surpresas, traições, reviravoltas, sexo, drogas e rock’n roll. Sério. Dá pra ter uma noção legal de quem é bom e de quem é ruim, mas os personagens são cheios de imperfeições e falhas de caráter, muito realista. Chega um momento do livro em que não se sabe pra quem torcer: por Tyrion, o anão sarcástico, ou Robb, filho de Ned, que enche a gente de orgulho enquanto vira homem? É complicado.

E ainda tem a questão do sobrenatural, que é especialmente focada nas partes do livro narradas do ponto de vista de Jon Snow, filho bastardo de Ned que vai para o extremo norte do país, ajudar na proteção de uma grande muralha que barra a invasão no reino de coisas, no mínimo, bizarras.

Em suma, pra quem gosta de fantasia, A Guerra dos Tronos é o livro perfeito. E não é para crianças também. O autor leva a realidade nua e crua para as páginas de sua história, várias ações “grandiosas” são descritas sem glória nenhuma, provando que a guerra é suja em qualquer situação: fictícia ou real. As cenas de bebedeiras, sexo/estupros e violência são descritas à perfeição, o que faz com que o livro seja mais pesado do que um moleque de 12 anos conseguiria agüentar. Eu li em algum lugar que “As Crônicas de Gelo e Fogo” é fantasia pra gente grande. E é mesmo. E essa é uma das características mais marcantes e importantes da série.

Tem muita gente por aí parando pra comparar a obra de Martin à de Tolkien. Eu parei um pouco pra pensar nisso e, correndo o risco de ser considerada herege, digo que, pelo menos por esse primeiro livro, eu prefiro As Crônicas de Gelo e Fogo. Senti no livro uma adrenalina que a história de Tolkien não tem e cada final de capítulo é um gancho pra você não querer parar de ler o livro. Mas, mesmo assim, acho que as comparações não são bem fundamentadas. Em comum, a única coisa que os livros tem é o gênero. São situações diferentes, personagens construídos de maneiras diferentes e, o mais importante, foram escritos em épocas diferentes. Não dá pra comparar a cabeça pós-guerra do George Martin com a história de Tolkien, que foi escrita durante a guerra. Ah, e um é americano e outro inglês. Disso já se tira uma boa noção das diferenças culturais entre ambos.

Mas, o que importa mesmo é que o livro é bom, ou melhor, o livro é ótimo. De todos o que eu resenhei aqui no blog esse foi, até agora, o que mais gostei de ler. Uma grande surpresa pois não esperava tanto da série.. essa história de 8 pontos de vista me assustou um pouco.

Recomendo o livro e também a série da HBO, vale a pena pra quem tem paciência e imaginação. E deixo apenas um conselho: não se apegue muito a ninguém. A gente nunca sabe quem vai morrer no próximo capítulo.

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