Anos 90: O legado do movimento grunge

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Kurt Cobain e o Nirvana comandaram uma mudança na postura de jovens que tinham um universo para se rebelar e se sentir bem num mundo conflituoso

Na manhã de 8 de abril de 1994, em Seattle (Estados Unidos), o grunge pedia misericórdia. Um evento emblemático, a morte de Kurt Cobain, do Nirvana, foi entendido pela crítica especializada e adeptos ao movimento como o declínio de uma geração, autodestrutiva para os moralistas e contestadores com uma causa “rebelde” que necessariamente era expressada por rifes raivosos, palavras de amor e ódio e o sentimento de repúdio à cordialidade social. O Nirvana e o grunge se transformaram em lenda, mas até hoje suas causas permeiam os anseios daqueles que não são passivos ao inconformismo.

O grunge foi um movimento porque existiu por meio da música, de atitudes e de um modo de se vestir, exacerbado pela calça jeans, tênis surrado e camisa xadrez flanelada, ou seja, nada mais do que um estilo urbano numa primeira década dos anos 90 que queria distancia do exagero de cor e breguice dos 80. A sonoridade, principalmente representada por bandas como a citada Nirvana, mas também Peal Jam e Soundgarden, era sóbria, nada festivas e ácidas, no sentido de causar incômodo e falar, sem receio, das frustrações, medos e incertezas dos novos tempos.

E antes de Cobain morrer, o Nirvana chegou ao mainstream e representou, em grande escala, jovens do mundo todo que despertaram para uma realidade não tão agradável. Era a banda cujas atitudes do vocalista/guitarrista com tendências suicidas, viciado em drogas e anti-star, ainda assim, encabeçou um movimento que alternou as diretrizes do rock. Mostrou, em redes de televisão, que a alienação cultural é consequência de uma ética corrompida pela ganância do homem. Para os brasileiros, o episódio da abstinência de heroína, durante o show da banda no Hollywood Rock, em 1993, é, até hoje, um retrato cru da personalidade de Cobain. Fez isso, relatou certa vez João Gordo, ao ser questionado por tocar em evento patrocinado por uma marca de cigarro, pouco interessada em promover o rock como arte legítima.

O Nirvana, que já havia lançado o debut Bleach (1989) e o Nevermind (1991), o clássico álbum do bebê na piscina com o dólar, que tem clássicos do começo ao fim, da faixa de abertura “Smells like teen spirit” a última, “Something in the way”, chegou a Piracicaba e foi a força motriz para a concepção da Killing Chainsaw, provavelmente, a banda local que mais ecoou na cena musical nacional dentro do gênero. Lançou dois álbuns, tinha contrato com a gravadora Roadrunner, major internacional, e shows pelo País. Há quem diga que até mesmo Kurt tomou conhecimento do coletivo piracicabano – na internet, circula foto, publicada nesta página, do ícone grunge com o disco da banda piracicabana em suas mãos.

“Sem dúvida o impacto do momento Nirvana no início dos 90 foi muito forte na banda e influenciou em muita coisa sim”, disse Rodrigo Toledo, o Gozo, que foi o vocalista e guitarrista da Killing Chainsaw.  Ele conta que toda aquela geração, ao lado de outras como Pin Ups (SP) e Happy Cow (também de Piracicaba), ser grunge era tanto aceitar a contragosto o rótulo, dar continuidade ao punk rock, “porém sem medo de se influenciar por Beatles ou mesmo Black Sabbath e AC/DC, o que era meio inaceitável no punk rock ‘tradicional’”.

Gozo revela que fazer música estava acima do termo grunge. “Mas temos consciência de que a idéia que nós chamávamos de barulho, parte do mundo chamou de grunge”. E, em Piracicaba, o que ele acredita ter existido foi uma cena “skate-rock”. “E isso acontecia no mesmo momento em que o punk e metal deixavam a guerra e o extremismo de lado e começavam a se ver como co-irmãos, e uma boa parte dessas pessoas começavam a admirar muitas bandas em comum. Tenho orgulho em dizer que o Killing era uma dessas bandas”.

A Killing Chainsaw é apenas uma única materialização do que o movimento grunge foi aos jovens dos anos 90. Outros, que nem ao menos saíram da garagem, eram apenas apreciadores das músicas que as bandas “grandes” lançavam. Em Pirassununga, existia a Stage Dive. Eram pessoas como qualquer outro “roqueiro” da época, que canalizava na música as dúvidas de se viver numa cidadezinha interiorana ainda com muito preconceito pelo libido juvenil e as vontades de ser como desejava-se – bem diferentes das gerações passadas.

Cobain não soube lidar com os sentimentos e a fama e se matou – ou foi assassinado, uma das teorias de conspiração sugere ter sido a mando da sua esposa, Courtney Love –, mas o que o movimento grunge proporcionou àquela geração, eles carregam até hoje. “No mundo, eu vejo que o que ficou foi uma imagem distorcida do que se pretendia fazer. Acho que nessa imagem distorcida o que mais se encaixa são mesmo bandas como Pearl Jam e Alice in Chains e o suicídio de Kurt Cobain”, disse Rodrigo sobre um possível legado do grunge, ainda que desconfie disso.  “O Nirvana ainda vai continuar ‘educando’ artisticamente uma certa parcela das novas gerações de bandas de rock”.

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