Katatonia: o fino da música pesada

 

A Murlocks inaugura a seção Música com uma matéria sobre a banda sueca Katatonia, que migrou do doom metal a um estilo pouco rotulável, mas capaz de agregar distintos gêneros e agradar muitos públicos.

Tonight’s Decision, Last Fair Deal Gone Down e Viva Emptiness, os álbuns que antecedem The Great Cold Distance, de 2006, foram aclamados – por parte dos fãs e crítica especializada – como registros de vanguarda, cuja sonoridade nada mais tinha do doom metal dos primórdios, mas magistralmente resguardaram atmosferas sombrias e densas do citado estilo. O andamento arrastado deu espaço a linhas melódicas com um peso até então pouco – ou nunca – explorado no meio metal. Além disso, Jonas Henske agora canta e os guturais desapareceram. Também foi questão de tempo para experimentar batidas sintéticas, com muito cuidado, o que sofisticou a produção.

A transformação do Katatonia é a prova material do que significa se desprender de rótulos e preconceitos. Longe do doom metal, distante do pop, inadequadamente heavy metal e elegante demais para simplificar ao rock. Tem melodia, com ou sem peso. É agressivo, mas também leve e atmosférico. Há harmonias genéricas, simples, intercaladas a passagens intrincadas, quebradas, cujas mudanças – seja numa mesma música ou de uma para outra – transmitem distintos sentimentos ao ouvinte. É sombrio, e mesmo assim carregado de luz.

Talvez a temática – humana demais – faça, mesmo, a diferença. A desobediência da mente, o desconforto em existir, a sensação de asas, a metafísica da vida, o amargo das traições, a necessidade de um afago, a vontade de sumir e ser esquecido, temas cantados por muitos, mas a estética do Katatonia é única. Para sentir as palavras é preciso deixar o corpo mais pesado que o habitual para a consciência preencher todo o íntimo. Leia o código, interprete-o, descodifique.

Enquanto arte, Katatonia é merecidamente apontado como uma banda contemporânea e as influências transcendem o tempo presente. The Cure, dos anos 80, é uma referência, principalmente devido à melodia, mas diluída no descompasso rítmico do metal dos 90, que trabalha com a percepção de barulhos e distorções. No entanto, na transição para o novo milênio os suecos mantiveram praticamente apenas a sobriedade e o desconforto de nunca estagnar, sendo assim, chegam aos anos 2000 certos de que, além do som tirado dos instrumentos, deveriam usar e abusar da produção, experimentar, ousar.

E no campo extramusical, a amizade de Henske com Mikael Åkerfeldt, o vocalista e guitarrista da conterrânea Opeth, ao longo dos anos, fez a diferença. Duas mentes brilhantes cujas reflexões sobre música elevaram o nível técnico e intelectual de ambas as bandas. A troca de ideias é abertamente citada por eles em entrevistas. Juntos entenderam, cada um do seu jeito, que a brutalidade remete à paz de espírito e a tranquilidade do ser é causa/consequência da aflição existencial, e isso, em forma de músicas, significa dialogar com dualidades. Se evoluir, nunca obstrua os caminhos ao passado. O que é bonito um dia foi ou será feio. Quem manda já ficou de joelhos. O sol queima, mas também gela.

Por isso é corriqueiro num álbum do Katatonia ouvir uma canção densa, com riffs distorcidos e cortantes, e de repente se deparar com uma semi-balada, cadenciada ou lenta, ou ainda com músicas atmosféricas.

O conceito se perpetua em The Great Cold Distance, desde as cores vermelha e preta do encarte e fotos de divulgação à sonoridade devidamente trabalhada para perpetuar, de vez, um estilo – e com novidades: o minimalismo se faz presente em muitas das 12 faixas deste álbum. A repetição de batidas, riffs e marcações potencializam a ambientação enigmática das músicas e encoraja o ouvinte a adentrar ao universo sugerido, às vezes de forma confortável, às vezes em transe.

Todas as composições do Katatonia são como fábulas, com começo, meio e fim; com introdução, clímax e o desfecho; com uma lição de vida a partir de frases fortes e reflexivas. Primeiro, cria-se um clima, depois um tema e, em seguida, o executa. Os suecos assim fazem com emoção e conseguiram formar ao redor do globo uma legião de fãs incondicionais, o que legitima bravamente a importância da banda na indústria musical.

O Katatonia é exaltado porque congrega muitos, se não todos, os tidos elementos necessários para se firmar no estilo. Desconhecida para o grande público e ainda distante de ser unanimidade até mesmo num meio mais familiar, o do metal, esta banda sueca condiz, mesmo, com a essência do rock: conquistou seu espaço, produziu músicas admiráveis, se transformou e ainda respira saudável, convive diariamente com detratores e vive para trazer luz ao mundo.”

E não deixem de escutar Night s the New Day, de 2009, e Dead End Kings, o novo álbum lançado há poucos dias!

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